quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

ANTES QUE ANOITEÇA

Antes que anoiteça eu vou caminhar nas ruas e ver as luzes se acendendo lentamente, casa por casa, poste por poste. Não sei se ainda restarão vestígios de um perfume que impregnou em meu corpo. Vou ver as ondas suicidas se atirando na areia pra explodir e morrer. Restam à embriaguez do corpo, a empáfia dos sentimentos moribundos que ainda restarão em mim, à palidez da pele e o medo. Estarei à espera das noites que chegam mansas e arrastam vidas e sonhos ou os impulsionam. Agente quase acredita que os sonhos existem.
Nessas noites eu brindo as coisas que a vida me oferece. Brindo até mesmo as ilusões dos homens. Mais não brindo a paixão ou o amor. Nessas noites eu transo com o mundo, eu cuspo na face da morte. Eu calo a boca, e apenas deixo o sexo correr entre os dedos, na ponta da língua, nos pelos rasteiros do corpo. Drogo-me pra esquecer, me drogo para ter coragem, me drogo pra tornar-me ruim, me drogo para maldizer os amores passados se é que foi amor.
E assim a vida passa pesada aos ombros, feia aos olhos, distante ao abraço, quente ao sexo, perdida ao caminho, calada a fala, mórbida a morte, inquieta ao corpo. Ainda sinto o cheio das prostitutas de Copacabana antes do anoitecer. Ainda sinto o gosto delas. Ainda sinto seu colo quando eu me deitava pra chorar. Elas me acalentaram e me fizeram me sentir homem outra vez. Antes que anoiteça eu vou gritar canções. Antes que anoiteça eu vou correr sem olhar pra trás. Antes que anoiteça eu vou pedir perdão a Deus. Antes que anoiteça eu vou me virar do avesso. Antes que anoiteça eu esqueço. Antes que anoiteça eu vou olhar sua janela uma ultima vez. Antes que anoiteça eu vou fingir a própria morte. Antes que anoiteça a minha carência de paz se esvai. Antes que anoiteça meu corpo se acalma.
Quando amanhece é ressaca. É dor na cabeça. Ossos quebrados em milhares de pedaços. Quase arrependimento. Quase pesa a consciência. Quase transe, dormência, êxtase. Tudo ilusão. Eu volto pra casa, se é que posso chamar de casa. Volto pro vazio, volto pro espelho que reflete meu olhar soturno e distante. Chega de enchê-los com essas baboseiras. Eu também estou de saco cheio de falá-las. Estou cansado.
Rafael Antunes Lima

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